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Artigos: Brasil
Podemos, a FIFA e a Filarmônica de Berlim PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Lunes, 01 de Junio de 2015 11:55

Por Moises Naim.-

É parecido com a eleição do Papa. Os 123 músicos da Orquestra Filarmônica do Berlim, talvez a melhor do mundo, se reúnem em lugar isolado e secreto, entregam seus celulares e votam para escolher seu diretor, sucessor de Herbert von Karajan, Claudio Abbado e outras luminárias que seguraram a batuta nessa instituição. Neste conclave secreto, os músicos votam tantas vezes quantas forem necessárias até que um dos candidatos alcance uma maioria significativa. Há algumas semanas, e pela primeira vez desde 1882, os músicos não conseguiram chegar a um acordo. Sua fragmentação impossibilitou a eleição do substituto do diretor atual, sir Simon Rattle, e assim, imitando um costume do Congresso dos EUA, decidiram adiar a decisão para o próximo ano. “Os músicos de Berlim orquestram o fim da autocracia”, escreveu a crítica Shirley Apthorp, acrescentando: “A era do autocrata terminou; até orquestras menos democráticas que a de Berlim querem ter mais influência sobre seu destino. O estilo absolutista de Herbert von Karajan já não tem lugar em uma sociedade igualitária”.

Essa afirmação é perfeitamente aplicável a muitos âmbitos da atividade humana. Inclusive à Fifa, por exemplo. Alguém duvida que estejamos vendo o final da forma corrupta, opaca e autoritária como funcionou até agora a organização que dirige o futebol no mundo? Por mais que Sepp Blatter, o hábil ditador “democraticamente eleito” da Fifa, continue atuando como sempre fez (e até consiga ser reeleito!), o fim de sua liderança é tanto óbvio como inevitável.

Isso não está ocorrendo só na música ou no futebol. Nas últimas semanas, os resultados das eleições no Reino Unido, na Espanha e na Polônia reconfiguraram a ordem política desses países. O Partido Nacionalista Escocês, no Reino Unido, e os partidos Podemos e Cidadãos, na Espanha, irromperam no cenário, tirando poder das legendas tradicionais. Na Polônia, Andrzej Duda, um candidato relativamente desconhecido até recentemente, derrotou o presidente Bronislaw Komorowski. Em todos esses casos, os especialistas e os institutos de pesquisa se viram surpreendidos pelos resultados.

Algo parecido ocorre no mundo do dinheiro e dos negócios. A revista Fortune está para publicar sua famosa lista das 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Nada menos que 57% das companhias que estão este ano na lista não apareciam em 1995. A rotatividade é ainda maior nas classificações das maiores empresas do mundo. Há cada vez mais empresas de países emergentes –especialmente da China –, assim como de setores de negócios que até poucos anos não existiam. Enquanto a Alibaba, a empresa chinesa de comércio eletrônico fundada em 1999, tem um valor de 224 bilhões de dólares (711 bilhões de reais), muitas das companhias europeias ou norte-americanas que antes dominavam seus mercados desapareceram da lista. A Kodak, por exemplo.

O mesmo está ocorrendo com a lista das pessoas mais ricas. Apenas 10% dos norte-americanos que em 1982 estavam na lista da revista Forbes continuavam nela em 2012. É interessante destacar que obtendo simplesmente um rendimento de 4% ao ano sobre seu capital, a grande maioria dos ricos de 1982 teria continuado na lista 30 anos depois. Mas eles não o obtiveram. Quem os substituiu? Os asiáticos.

O Relatório dos Bilionários de 2015 publicado recentemente pela UBS/PwC mostrou que um crescente número de pessoas com fortuna superior a um bilhão de dólares reside e trabalha na Ásia. Dos 1.300 super-ricos incluídos no relatório, 66% não herdaram sua fortuna – eles a construíram. Há duas décadas, a situação era inversa: 57% dos ricos do mundo estavam nessa categoria porque haviam herdado um grande capital. E até 1980, indica o relatório, a grande maioria dos bilionários se concentrava nos Estados Unidos e na Europa. Agora não. Em 2015, 36% dos super-ricos que não herdaram sua riqueza são asiáticos. Apenas 17% são europeus. E 47% residem nos EUA.

A grande surpresa não é que todas essas coisas estejam ocorrendo. O mais surpreendente é a frequência com que os líderes tradicionais da política, da economia, dos esportes ou das artes acreditam que podem continuar se comportando como sempre fizeram. Blatter, o chefe da Fifa, é um bom exemplo disso. Depois de sua reeleição, uma bofetada nas pessoas decentes do mundo, Blatter disse: “Não precisamos de revoluções, precisamos de evoluções. E eu consertarei a Fifa”. Não. Ele não a consertará. Os que a consertarão serão os fiscais e juízes norte-americanos que mandarão para a prisão os corruptos desse organismo. E essa é a revolução da qual Blatter tenta se salvar.

EL PAIS; ESPANHA

No Twitter: @moisesnaim

 
Desvendar a trama PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Martes, 05 de Mayo de 2015 01:34

Por Fernando Henrique Cardoso.-

Eu preferiria não voltar ao tema arqui-batido das crises que nos alcançaram. Mas é difícil. Vira e mexe, elas atingem o bolso e a alma das pessoas. Na última semana, o início de recessão repercutiu fortemente sobre a taxa de desemprego. Considerando apenas as seis principais metrópoles, ela atingiu 6,2%, a maior taxa desde 2001. A Petrobras, ao tentar virar uma página de sua história recente, pôs em evidência que o “propinoduto”, enorme (seis bilhões de reais), é incomparavelmente menor do que o “asnoduto”, dos projetos megalômanos e mal feitos: 40 bilhões de reais. São cifras casadas, pois quanto piores ou mais incompletos os projetos de obras, mais fácil se torna aumentar seu custo e desviar o dinheiro para fins pessoais ou partidários.

O setor elétrico foi vítima de males semelhantes (só à Petrobras as “pedaladas” da Eletrobrás custaram 4,5 bilhões de reais) e não é o único setor no qual os desmandos vêm se tornando públicos. Se algum dia se abrirem as contas da Caixa Econômica, vai-se ver que o FGTS dos trabalhadores deu funding para uma instituição bancária pública fazer empréstimos de salvamento a empreendimentos privados quebrados. No caso do BNDES, a despeito da competência de seus funcionários, emprestou-se muito dinheiro a empresas de solvabilidade discutível, também com recursos do FAT, ou seja, dos trabalhadores (ou dos contribuintes), oriundos do Tesouro.

No afã de “acelerar o crescimento” usando o governo como principal incentivo, as contas públicas passaram a sofrer déficits crescentes. Pior, dada a conjuntura internacional negativa e o pouco avanço da produtividade nacional, também as contas externas apresentam índices negativos preocupantes quando comparados com o PIB brasileiro (cerca de 4%, com viés de alta). Pressionado pelas circunstâncias o Governo atual teve que entregar o comando econômico a quem pensa diferente dos festejados (pelos círculos petistas e adjacentes) autores da “nova matriz econômica”. Esta teria descoberto a fórmula mágica da prosperidade: mais crédito e mais consumo. O investimento, ora, é consequência do consumo... Sem que se precisasse prestar atenção às condições de credibilidade das políticas econômicas.

Não haverá milagre econômico sem transformação política".

As consequências estão à vista: chegou a hora de apertar os cintos. Como qualquer governo responsável – antes se diria, erroneamente, neoliberal – o atual começou a cortar despesas e restringir o crédito. Há menos recursos para empréstimos, mais obras paradas, maior desemprego, e assim vamos numa espiral de agruras, fruto da correção dos desacertos do passado recente. Para datar: essa espiral de enganos começou a partir dos dois últimos anos do governo Lula. Agora, na hora da onça beber água, embora sem reconhecer os desatinos, volta-se ao bom senso. Mas, cuidado, é preciso que haja senso. Ajuste fiscal, às secas, sem confiança no Governo, sem horizontes de crescimento e, pois, com baixo investimento, é como operação sem anestesia. Pior: política econômica requer dosagem e nem sempre os bons técnicos avaliam bem a saúde geral do país.Também o cavalo do inglês aprendeu a não comer; só que morreu.

Não quero ser pessimista. Mas o que mais falta faz neste momento é liderança. Gente em quem a gente creia, que não só aponte os caminhos de saída, mas comece a percorrê-lo. Não estou insinuando que sem impeachment não há solução. Nem dizendo o contrário, que impeachment é golpe. Estou apenas alertando que as lideranças brasileiras (e escrevo assim no plural) precisam se dar conta de que desta vez os desarranjos (não só no plano econômico, mas no político também) foram longe demais. Reerguer o país requer primeiro passar a limpo os erros. Não haverá milagre econômico sem transformação política. Esta começa pelo aprofundamento da operação Lava Jato, para deixar claro por que o país chegou aonde chegou. Não dispensa, contudo, profundas reformas políticas.

Os diretores da Petrobras envolvidos na roubalheira devem ser penalizados, mas não foram eles os maiores responsáveis. Quem enganou o Brasil foi o lulo-petismo".

Não foram os funcionários da Petrobras os responsáveis pela roubalheira (embora alguns nela estivessem implicados). Nenhuma diretoria se mantém sem o beneplácito dos governos, nem muito menos o dinheirão todo que escapou pelo ralo foi apropriado apenas por indivíduos. Houve mais do que apadrinhamento político, construiu-se uma rede de corrupção para sustentar o poder e seus agentes (pessoas e partidos). Não adianta a Presidente dizer que tudo agora está no lugar certo na Petrobras. É preciso avançar nas investigações, mostrar a trama política corrupta e incompetente. Não foi só a Petrobrás que foi roubada, o país foi iludido com sonhos de grandeza nacional enquanto a roubalheira corria solta na principal companhia estatal do país.

Quase tudo que foi feito nos últimos quatro mandatos foi anunciado como o “nunca antes feito neste país”. É verdade, nunca mesmo se errou tanto em nome do desenvolvimento nacional nem jamais se roubou tanto sob a proteção desse manto encantado. Embora os diretores da Petrobras diretamente envolvidos na roubalheira devam ser penalizados, não foram eles os responsáveis maiores. Quem enganou o Brasil foi o lulo-petismo. Lula mesmo encharcou as mãos de petróleo como arauto da falsa autossuficiência. E agora José? Não há culpabilidade política? Vai-se apelar aos “exércitos do MST” para encobrir a verdade?

É por isso que tenho dito que impeachment é uma medida prevista pela Constituição, pela qual não há que torcer, nem distorcer: havendo culpabilidade, que se puna. Mas a raiz dos desmandos foi plantada antes da eleição da atual presidente. Vem do governo de seu antecessor e padrinho político. O que já se sabe sobre o Petrolão é suficientemente grave para que a sociedade repudie as forças e lideranças políticas que teceram a trama da qual o escândalo faz parte. Mas é preciso que a Justiça não se detenha antes que tudo seja posto às claras. Só assim será possível resgatar os nossos mais genuínos sentimentos de confiança no Brasil e no seu futuro.

EL PAIS; ESPANHA

 
A diplomacia americana do Papa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Domingo, 03 de Mayo de 2015 11:34

Por .-

Não deveria surpreender que o papa Francisco tenha se transformado num protagonista da política latino-americana. O Vaticano confirmou que em setembro, antes de pisar os Estados Unidos, ele visitará Cuba. Como dizem seus amigos, pretende “examinar a criatura”. O restabelecimento de relações diplomáticas entre Havana e Washington, que foi negociado na Santa Sé, é sua iniciativa diplomática mais relevante no próprio continente.

Mas a escala cubana vai além desse significado. Será também um contraponto do giro norte-americano, indispensável para alguém que, como Jorge Bergoglio, vive projetando simetrias conceituais ou simbólicas. O encontro com Fidel e Raúl Castro será, além do mais, uma aproximação oblíqua a dois fenômenos que inquietam a América Latina: a fratura política venezuelana e as hesitações do diálogo com as FARC, na Colômbia. Nessa perspectiva, a viagem à ilha pode ser vista como a última etapa de outro itinerário: aquele que, em julho, levará o Papa ao Paraguai, Bolívia e Equador.

A crise venezuelana é observada por Roma, como por Washington, com muitíssima cautela

Bergoglio interessou-se por Cuba desde muito antes de ser papa. Em 1998 escreveu Diálogos entre João Paulo II e Fidel Castro, analisando a visita que seu antecessor realizara em janeiro daquele ano. O livro é premonitório de sua estratégia atual. Ali celebrou “a vontade de conceder que demonstrou Fidel Castro” com a libertação de presos políticos, e “a inclinação papal a promover o levantamento de barreiras impostas a Cuba pelos superpoderes”.

O então arcebispo de Buenos Aires expôs nesse trabalho as ideias que repetirá em sua viagem: enfatizou a crítica de João Paulo II “ao modelo de Estado moderno que pretende amparar-se no ateísmo ou em motivações pseudoreligiosas para enunciar seus ordenamentos políticos, como aqueles outros que adotam uma forma de neoliberalismo capitalista, modelo no qual se submete o ser humano (…) à força pura do mercado”.

Bergoglio nunca simpatizou com o liberalismo secularizante. Tampouco com a esquerda revolucionária. O peronismo, que se sonhou como uma “terceira posição”, ofereceu-lhe uma saída para esses receios. Fora da Argentina, é mais difícil que encontre uma solução para seu dilema.

A viagem do papa Wojtyla foi preparada por quem havia sido seu núncio em Cuba, Beniamino Stella. Na quinta-feira passada, transformado em cardeal, Stella retornou à ilha para organizar a nova visita. Em 1998, o regime castrista estava ameaçado pelo desaparecimento da União Soviética. Agora sofre a crise da economia venezuelana. Em ambas as ocasiões o Vaticano ajudou os Castro a evitar uma rendição. Desta vez existe uma afinidade adicional: Fidel e Raúl foram formados por jesuítas como Bergoglio.

A etapa boliviana é a que provoca maior expectativa

Stella tem uma missão em Havana: conseguir que na visita de Francisco seja consagrada a liberdade religiosa na ilha.

É possível que na chegada de Francisco exista em Havana uma embaixada norte-americana. Ao retornar da Cúpula do Panamá, Barack Obama informou o Congresso que removerá Cuba da lista de nações que apoiam o terrorismo. Para levantar o embargo, ele necessitaria de uma lei para a qual hoje não tem votos. Os Castro também ficarão na metade de caminho. Raúl pensa governar até que, em 2018, o partido único escolha um sucessor que dirija o país durante cinco anos. Os direitos civis e políticos serão ampliados? Muito pouco. O regime se olha no espelho chinês.

Entre o Vaticano e Washington existem outras coordenações. Em um gesto incomum, em março Obama designou Bernard Aronson como enviado para o processo de paz colombiano, que se negocia em Havana. Lá, Aronson se reuniu com os delegados do presidente Juan Manuel Santos, mas também com as FARC, apesar de que seu país a considere uma organização terrorista. O Vaticano, por seu lado, anunciou uma visita papal à Colômbia em 2016. Santos se arriscou a dizer que quando Francisco chegar a Bogotá a paz talvez esteja assinada.

Por outro lado, a crise venezuelana é observada por Roma, como por Washington, com muitíssima cautela. Nicolás Maduro não conseguiu se comunicar com Bergoglio antes de viajar ao Panamá. Falou com o cardeal Antonio Parolin, o secretário de estado, que até 2013 foi núncio em Caracas. Parolin condenou as sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela, mas no Panamá recebeu os familiares dos presos políticos do chavismo. A Conferência Episcopal venezuelana está em conflito com Maduro. Principalmente desde que desprezou Parolin: logo que cessaram as mobilizações contra ele, ignorou a mediação da Igreja com a oposição.

Hoje Maduro sofre um isolamento delicado, que agudizou seu enfrentamento com a Espanha. Para o herdeiro de Chávez, a chegada de Felipe González a Caracas, no próximo mês, para participar da defesa de Leopoldo López e Antonio Ledezma, é algo insuportável. Como explicar que essa presença é parte de uma conspiração imperial contra o socialismo do século XXI? Os insultos contra González levantaram uma onda inconveniente para Maduro: Fernando Henrique Cardoso, Julio María Sanguinetti e Ricardo Lagos, três líderes que são uma referência para toda a região, saíram em defesa do ex-presidente da Espanha. Foi um “por que não se cala”, mas em versão coral.

A Igreja não quer se prejudicar na imprevisível fogueira chavista. Para enfrentar essa crise, Francisco recorrerá ao seu método favorito: a aproximação indireta. Em 6 de julho inicia uma excursão pela América Latina. Como é a primeira organizada por ele, leva seu selo: a predileção pelas periferias. Viajará ao Paraguai, Bolívia, Equador. Com Evo Morales e com Rafael Correa, amigos de Maduro, falará da Venezuela.

A etapa boliviana é a que provoca maior expectativa. Em janeiro, saindo do Vaticano, Morales revelou que Francisco havia lhe pedido antecedentes sobre a reclamação da Bolívia ao Chile pela saída marítima. Para os chilenos foi quase um terremoto. O governo socialista fez gestões para evitar que a Igreja se somasse à campanha de Morales, que pretende resolver o conflito na Corte de Justiça de Haia.

O esforço do Chile deu resultados. O Papa receberá Michelle Bachelet em 5 de junho. Paixão pela simetria.

EL PAIS; ESPANHA

 
A tentação de se eternizar no poder PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Martes, 30 de Diciembre de 2014 11:50

Por .-

Um fantasma percorre a América Latina: a tentação dos presidentes de não largar o poder. Sua ideologia não os distingue. Esquerdistas como Hugo Chávez e Rafael Correa, assim como o direitista Alberto Fujimori, mudaram as constituições de seus países com a intenção de se eternizarem no poder. Diferentemente dos caudilhos do passado, que se impunham com a força das tropas ou faziam fraudes visíveis, os mandatários de hoje ganham eleições que são tecnicamente limpas, mas que ocorrem em disputas que favorecem descaradamente os candidatos que já são presidentes. Não que todos os presidentes da região padeçam dessa febre. Há alguns, como o presidente José Mujica, que rejeitaram a ideia da reeleição indefinida. Outros, como Álvaro Uribe, foram detidos pelas instituições da democracia constitucional.

Um dos desafios democráticos é seguir os preceitos para abandonar o poder. Por mais que doa aos presidentes em seus mandatos, o poder, em uma democracia, não pertence a ninguém. As revoluções democráticas dos séculos XVIII e XIX decapitaram a cabeça do rei. O poder deixou de estar encarnado na figura do representante de Deus na Terra e passou às mãos de seres comuns, de carne e osso, que só podem ocupá-lo temporariamente. A figura do presidente não foi a mesma da pessoa que temporariamente ocupa a cadeira da Presidência. Os políticos fizeram cálculos para se protegerem quando inevitavelmente saírem do poder, passarem à oposição e precisarem de garantias para continuar fazendo política.

Diferentemente dos políticos que se veem como responsáveis temporários pelo poder, alguns acreditam ter a missão de redimir sua pátria e seu povo. O sentido de missão foi eloquentemente articulado por Hugo Chávez quando ele transmitiu pela televisão para toda a Venezuela uma missa familiar durante a Semana Santa de 2012. Chávez pediu vida ao Criador: “Dá-me vida porque ainda tenho muito para fazer por este povo e esta pátria. Não me leve ainda. Dá-me tua cruz, dá-me teus espinhos, dá-me teu sangue, que estou disposto a carregar tudo, mas com vida, Cristo, meu Senhor. Amém”.

Rafael Correa compartilha a missão de Chávez de conduzir sua pátria à segunda e verdadeira independência. Prometeu e cumpriu dar fim ao neoliberalismo, e seu governo distribuiu o rendimento do petróleo. Isso não atingiu as fortunas dos grupos mais poderosos, e junto a seu governo emergiram novas fortunas, como na Venezuela. Prometeu uma revolução do povo que se reduziu a convocar eleições sem os mecanismos participativos que Hugo Chávez impulsionou. Assim como o ex-presidente venezuelano, Correa não é um político mais, eleito para um mandato ou, quando muito, para dois. É mais como um pai da pátria. Os pais têm a obrigação de zelar pelo bem-estar de seus filhos por toda a vida. Sua missão não pode ser limitada por “legalismos” como os limites à reeleição presidencial.

Os patriarcas redentores infantilizam os cidadãos quando se assumem como as figuras indispensáveis que devem guiá-los. Como bons pais, baseiam todas as suas ações no amor: amam sua pátria, seus pobres, a América Latina. Se os cidadãos aceitam seu carinho, são premiados; do contrário, podem ser castigados. Jornalistas, caricaturistas, apresentadores de televisão foram punidos. As ONGs, em especial as que se opõem ao extrativismo e trabalham com os indígenas, são tachadas de armas do imperialismo. Centenas de ativistas foram acusados de terrorismo pelo governo de Correa, e as principais vítimas de sua repressão seletiva são a esquerda organizada nos partidos Pachakutik e MPD.

Suas lideranças não são submetidas à disciplina partidária nem à legalidade, que está nas mãos de pessoas próximas ao Executivo. Na ausência de mecanismos legais internos, e com todas as instituições de prestação de contas nas mãos de figuras leais aos presidentes, os líderes de movimentos sociais, os jornalistas e ativistas recorrem a órgãos internacionais para resistir aos ataques aos movimentos sociais e à liberdade de expressão. Essas organizações internacionais, assim como as organizações da sociedade civil transnacional, questionam esses governos por seus ataques à liberdade de expressão e aos direitos civis. As críticas externas foram usadas para que eles se apresentassem com vítimas de conspirações imperialistas.

Correa provavelmente será reeleito pela quarta vez em 2017. Sem mecanismos institucionais que regulem sua ânsia de poder, ocupará a presidência enquanto tiver saúde e não ocorrer um escândalo de corrupção como o que pôs fim ao governo de Alberto Fujimori. Quando os presidentes tentam se eternizar no poder, dão fim à ideia da democracia como espaço vazio que os políticos só podem ocupar temporariamente. Tentam costurar a cabeça do rei no corpo decapitado da democracia. O messias é o patriarca que vai guiar seus filhos à redenção, mesmo que à custa de acabar com as instituições e normas que permitem o pluralismo democrático e a construção da cidadania autônoma

EL PAIS; ESPANHA

Carlos da Torre é Diretor de Estudos Internacionais da Universidade de Kentucky

 
O Mensalão Brasileiro e a Impunidade dos Poderosos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Sábado, 13 de Septiembre de 2014 10:55

Por Jorge Hernández Fonseca.-

Os antecedentes do Mensalão brasileiro iniciaram-se no ano 2005. Produto de discrepâncias com o partido governante --Partido dos Trabalhadores, PT-- o chefe de outro dos partidos aliados ao governo denunciou o esquema de “compra” ilegal de parlamentares envolvendo sumas consideráveis de dinheiro procedentes das arcas do estado, através de um esquema de desvio de recursos públicos, com apoio de bancos privados y públicos combinados com una empresa de publicidade.

José Dirceu, ministro então da Casa Civil (uma espécie de Primeiro Ministro) era o segundo homem do presidente Luis Inácio Lula da Silva e dirigia seu equipo ministerial. Dirceu foi presidente do PT nos últimos anos e tinha sido uma peça chave para a eleição de Lula no seu primeiro mandato.

Dirceu tinha-se exilado em Cuba durante a ditadura militar, onde segundo asseguram seus companheiros exilados, fez compromisso com a inteligência cubana, a que submeteu ele a uma cirurgia facial para deformar seu rosto e foi enviado de volta ao Brasil com identidade cambiada, visando executar labores próprias da inteligência cubana. Uma vez instalado no Brasil, Dirceu formalizou uma relação afetiva e formou uma família, ate que sobrevieram os câmbios democráticos. Junto ao Lula da Silva foi fundador do PT, se convertendo num de seus homens mais íntimos.

Lula foi eleito para seu primeiro mandato como presidente do Brasil em 2002, com o compromisso escrito de “não cambiar o escenário da economia de mercado e a democracia política”. Na época, a ditadura castrista ensaiava na América Latina um novo esquema para a “tomada de poder político”: eleições democráticas ganhadas por um populista financiado pelo castrismo, que uma vez no poder, mudaria a Constituição, para impor, desde o governo, um regime “socialista”. A primeira experiência triunfal tinha sido na Venezuela, que elegeu Hugo Chávez e na sequência, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa em Equador.

Existe a hipótese de que Lula da Silva comprometeu-se com respeitar o sistema político brasileiro, fazendo jus a sua palavra, mas, visando eleger como seu sucessor ao homem de confiança de Fidel Castro no Brasil, José Dirceu, para --livre Lula de seu compromisso-- ensaiar no Brasil mesmo esquema bem sucedido da Venezuela, Bolívia e Equador, levando o país ao castrismo. O anterior ponto de vista justifica, em parte o esquema de compra de parlamentares do qual Dirceu era chefe e não Lula da Silva, visando que a compra de vontades for uma atadura dele com cada parlamentar, para que no futuro não tiver oposição à manobra “socializante”.

Favorável a esta hipótese temos o fato de que a substituta de José Dirceu então, é a atual presidenta Dilma Rousseff, quando produto do escândalo substituiu ele como ministro da Casa Civil. Rousseff ocupou o mesmo cargo ocupado antes por Dirceu, saltando à presidência do Brasil. Desde este alto cargo, Dirceu preparava seu caminho á presidência, com muito poder e dinheiro.

O esquema foi descoberto y estourou um escândalo que desvendou o mecanismo de desvio de dinheiro público dirigido centralmente por José Dirceu --que não atingiu na época ao Lula da Silva-- que foi preservado tanto pelos corruptos como pelos acusadores. A corrupção arrastou também ao presidente, ao financeiro e ao secretario geral do PT, todos acusados de corrupção.

Iniciou assim um processo judicial que em Brasil --e por se tratar de ministros e altos cargos do partido político no poder-- correspondeu ao Tribunal Supremo de Justiça, como foro jurídico para julgar esse pessoal de tão alto nível governamental. O processo alastrou-se por quase sete longos anos, até que a meados de 2012, deu início ao conhecido como “Juízo do Século”. A natureza política do juízo fez que se alongasse chegando até o pressente ano 2013, quando foram ditadas sentenças, que resultaram em 25 condenações a diversas penas de cadeia.

Segundo a legislação brasileira, as penas de cadeia são compridas em regime fechado, semiaberto, ou em prisão domiciliar, segundo sejam réus primários e também segundo sejam os anos de condena. No caso do “mensalão”, Dirceu foi condenado a mais de 10 anos de prisão em regime fechado e outros altos cargos do PT a regimes semiabertos, pelo qual a estratégia das defesas insistiu, nesta fase final do juízo, em fazer valer um duvidoso procedimento de apelação --quando já as sentencias foram ditadas-- visando que, alguns dos condenados (12 dos 25 sancionados) ficaram com o direito de ter um novo julgamento.

Assim as coisas, o Tribunal Supremo se dividiu ao meio. Previamente e como o processo foi muito longo, alguns dos membros do Tribunal Supremo tiveram que se aposentar por lei e os novos membros (nomeados pela presidenta, e por tanto, supostamente comprometidos com os “militantes”) desbalancearam a votação para a validade dos duvidosos recursos de apelação em favor dos réus condenados.

Nos finais do juízo, Brasil viveu uma semana ante a expectativa do resultado, porque na última sessão havia-se registrado um empate de cinco votos em favor de fazer a apelação e cinco votos em contra, adiando-se então as sessões e deixando um último voto para desempatar para a semana seguinte, fazendo mais evidente a importância da decisão do juiz que decidiria. Foram escritos artigos em favor de fazer as apelações, basicamente de simpatizantes da esquerda e outros contra da apelação, argumentando que assim favoreceriam aos réus já condenados, para reduzir as suas condenas.

Um aspecto para resaltar é que --da maneira como foi decidida-- (em favor de fazer um novo julgamento a efetuar-se o ano próximo) a sensação de impunidade ficou evidenciada. Os principais réus condenados no primeiro juízo (eram 12) transmitido então pela TV, no qual se ventilaram e provaram suas culpas, dar uma nova oportunidade para outro julgamento reforçaria a sensação da mesma impunidade que o PT sempre criticou. Uma das principais banderas do partido de Lula da Silva e Dilma Rousseff veio favorecer agora a seus “camaradas” corruptos.

No juízo futuro, com novos juízes (supostamente comprometidos com os “companheiros”) teme-se a possibilidade de que os crimes fiquem impunes, o poder judiciário ao máximo nível fique desprestigiado e a sociedade brasileira no seu conjunto se resenta frente à constatação de que os “poderosos” (mais do que os ricos) são impunes ante a justiça. Procedam como procedam, sempre estarão protegidos. O episódio demonstra mais uma vez, que não é a ideologia de esquerda ou de direita de um partido político, o que define a decência y a correção política.

29 de Setiembre de 2013

Artigos do autor podem ser encontrados em http://www.cubalibredigital.com

 
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