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Escrito por Indicado en la materia   
Martes, 06 de Diciembre de 2016 11:50

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Por André Barata, Filósofo.- 

Fidel foi um ditador e Cuba não teve uma democracia. Impôs um regime autoritário em que houve perseguições e assassinatos políticos, em que não há liberdade de imprensa e em que, por conseguinte, não existe uma genuína opinião pública. Por sua vez, a “democracia cubana”, como nas antigas repúblicas democráticas do Leste  europeu, é um dispositivo de debate que, verdadeiramente, não é democrático. De que vale dizer que quase 9 milhões de cubanos participaram na discussão de um projecto de directrizes para a “política económica e social do Partido e da Revolução” se nenhum outro projecto chega a poder ser formulado? De que vale todos participarem se apenas há um partido por que participar? E de que valem eleições se há uma hierarquia de eleições que impede o sufrágio directo e universal e o aparecimento de candidaturas rivais?

 

 

Fidel não foi um ditador daqueles que derruba democracias. Pelo contrário, Fidel derrubou um ditador: Fulgêncio Batista. Fê-lo apesar do apoio, até militar, que os EUA naqueles anos 50 se dispuseram a dar a Batista, um facínora mafioso que exemplificava o pior horizonte que se perfilava para a América Latina de então: a irrelevância da democracia desde que garantida a subjugação quase colonial à vontade dos EUA.

Depois de derrubado Batista, os EUA tudo fizeram para derrubar quem derrubara o ditador. “Tudo fizeram” significa mesmo tudo: conspirações, assassinatos em território cubano, operações clandestinas da CIA e, finalmente, depois de uma escalada, uma tentativa gorada de invasão que nos ia mandando a todos para o galheiro. Com a maior clareza possível, importa dizer: não era a defesa da democracia que movia os EUA de então, mas sim o seu ódio paranóico pelos comunistas. Os EUA dos anos 50 eram uma companhia muito pouco recomendável. Ou esquecemo-nos de que os anos de luta contra Fulgêncio Batista foram também os anos da caça às bruxas macartista, que só encontra paralelo, nesses mesmos anos, numa igualmente vergonhosa persistência da segregação racial? Onde estava então a vontade de democracia: no “terror vermelho” ou na Sierra?

Mas Fidel foi um ditador e Cuba não teve uma democracia. Impôs um regime autoritário em que houve perseguições e assassinatos políticos, em que não há liberdade de imprensa e em que, por conseguinte, não existe uma genuína opinião pública. Por sua vez, a “democracia cubana”, como nas antigas repúblicas democráticas do Leste  europeu, é um dispositivo de debate que, verdadeiramente, não é democrático. De que vale dizer que quase 9 milhões de cubanos participaram na discussão de um projecto de directrizes para a “política económica e social do Partido e da Revolução” se nenhum outro projecto chega a poder ser formulado? De que vale todos participarem se apenas há um partido por que participar? E de que valem eleições se há uma hierarquia de eleições que impede o sufrágio directo e universal e o aparecimento de candidaturas rivais?

Uma democracia sem contraditório não é uma democracia. O resultado foi uma prolongada ditadura, certamente menos má do que a esmagadora maioria das ditaduras que atravessaram o século XX, mas ainda assim uma prolongada noite para o pluralismo e a liberdade.

Já os EUA, que nos anos 50 tanto contribuíram para que a revolução cubana fosse historicamente justificada, são um lugar onde o pluralismo vinga, pese embora as suas pretensões hegemónicas ao longo de todo o século. Logo nos anos 50 a opinião pública funcionou — muito por conta do extraordinário jornalista «Ed» Roscoe Murrow —, e não tardou que o macartismo caísse. A partir dos anos 60, a discriminação racial, imortalizando Martin Luther King, passou para o lado daquilo com que os EUA não se querem ver identificados. Nos anos 70, a guerra do Vietnam foi também combatida nas ruas de Nova Iorque e de São Francisco por movimentos pacifistas. Nos anos 80, protestos do movimento anti-nuclear levaram centenas de milhar às ruas. No final dos anos 90 tivemos a batalha de Seattle e já nos anos 10 deste século o movimento «Occupy Wall Street». Todos estes movimentos, ironicamente, foram sempre fonte de esperança e por isso também atentamente seguidos por aqueles que vêem nos EUA uma ameaça justificada.

Em Cuba nada disto se passou. A maior parte das vezes, se não todas, que os EUA tiveram de mudar foi por pressões internas e não porque a isso fossem forçados a partir do exterior. Foi o que faltou a Cuba, precisamente porque vivia em compressão democrática. O problema de Cuba não foi, então, a revolução, mas a ditadura.

Isto não significa que os EUA tenham mudado o suficiente e deixado de insistir na prepotência, movida por interesses, mas também pelas feridas as mais das vezes narcísicas. O embargo económico a Cuba leva 56 anos de história. Imaginem algo bastante pior do que 56 anos de “austeridade”! Consiste, obviamente, numa forma de guerra por meios económicos que atinge sobretudo o povo cubano, destruindo perspectivas de prosperidade económica mesmo numa sociedade extremamente capacitada. Não saíram de Portugal meio milhão de cidadãos em 4 ou 5 anos? Como não havia de ser pior em Cuba?

Olhar para o futuro passa por perceber como o embargo é um importante obstáculo a que Cuba se reforme politicamente, obstáculo que se perpetua apesar das inúmeras deliberações com que Assembleia Geral das Nações Unidas o reprova ano após ano. Repudiar o embargo — talvez a mais patente e prepotente sobrevivência do século XX neste nosso século — em nada significa condescender com o regime cubano, ou relativizar a crítica que este precisa de ouvir e encaixar: não há democracia sem contraditório “religiosamente” livre.

Se a morte de Fidel contribuir para virar esta página do século, há uma Cuba por continuar. E há um legado que deve transitar para este século com novas esperanças: as políticas sociais, de educação, de saúde, de desporto e de cultura que, apesar da pobreza, sempre colocaram Cuba entre os países da América Latina com melhor desempenho nos índices de desenvolvimento humano. Um legado que também é de Fidel. Sem relativizações.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Última actualización el Lunes, 26 de Diciembre de 2016 13:48
 

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