Viva o populismo, só para variar Imprimir
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Martes, 26 de Enero de 2010 11:17

Por CLÓVIS ROSSI

ZURIQUE - É impressionante a catarata de artigos, análises e declarações que atacam um suposto surto populista do presidente Barack Obama, só porque ele anunciou uma série de medidas destinadas a evitar os excessos que a banca pratica e que estiveram na origem da baita crise iniciada em 2007.

A maioria das análises usa a derrota do Partido Democrata na eleição para a vaga do senador Ted Kennedy em Massachusets, potencialmente catastrófica para Obama, como uma demonstração irrefutável de que o programa de controle dos bancos só pode ser populismo, porque atende, em um momento complicado, a cobrança (justa) do público pelo sangue dos gatos gordos da banca.

É bem possível, até provável, que Obama tenha de fato feito coincidir o "timing" do anúncio com o imediato pós-derrota. Isso é populismo ou é apenas política? Queriam o quê? Que Obama ficasse sentado na Casa Branca, esperando que sua Presidência fosse limada? Aí, seria acusado de molenga, indeciso, o diabo.

Quanto ao populismo, primeiro é bom dizer que esse rótulo passou a ser maldito a partir do momento em que se impôs ao mundo o tal "pensamento único", neoliberal, como se queira chamar o receituário hegemônico.

Mas, muitas vezes, atos apontados como populistas não passam de ações populares. Caso típico da regulação da banca, setor que nunca foi o mais amado pelo público e, agora, menos ainda (e há inúmeras razões para tanto, não?).

Segundo, é preciso dizer que Obama não inventou nada nas suas propostas nem elas são apenas o atendimento ao desejo de sangue do público.

Basta reproduzir a nota oficial do Conselho de Estabilidade Financeira: "As propostas anunciadas pelos Estados Unidos estão entre o leque de opções e enfoque sob consideração pelo Conselho de Estabilidade Financeira em seu trabalho para enfrentar os riscos colocados pelas instituições [ditas] grandes demais para quebrar".

O que é o Conselho: foi criado [pelo G20] para coordenar, no plano internacional, o trabalho de autoridades financeiras nacionais e os corpos internacionais de estabelecimento de normas e para desenvolver e promover a implementação de políticas eficazes de regulação, supervisão e outras políticas para o setor financeiro.

Seus membros são predominantemente altos funcionários dos Bancos Centrais das economias relevantes, Brasil inclusive. Bancos Centrais são o antônimo exato de populismo. Alguém aí acha que Henrique Meirelles é populista?

Portanto, Obama não está fazendo nada que fuja aos padrões que o establishment internacional não tenha já discutido e ao menos em parte sugerido.

Por que, então, há essa reação contra Obama e silêncio sobre a ação do FSB (a sigla em inglês para o Conselho de Estabilidade Financeira)? É basicamente uma questão de foco: a Casa Branca está permanentemente iluminada pelos holofotes da mídia. Mais ainda se uma de suas ações pega Wall Street, tomando a ruazinha de Nova York como sinônimo de mercados financeiros, porque é outra zona sempre sob os holofotes e com imensa capacidade de influir na agenda da mídia.

Já a Basileia, QG do Conselho e dos bancos centrais do planeta, é uma cidadezinha suíça pequena e tranquila em que nada acontece que atraia jornalistas. As reuniões do FSB se dão a cada dois ou três meses, sempre aos domingos e segundas-feiras, poucos jornalistas aparecem, os temas são quase impenetráveis para os mortais comuns, pelo seu caráter técnico e, acima de tudo, a TV rarissimamente noticia porque não dão imagens bacanas aqueles senhores engravatados discutindo temas quase esotéricos.

De mais a mais, as recomendações da Basileia só viram regra quando compradas pelos governos, em especial dos países ricos. Quando Obama coincide com elas, Wall Street berra e o presidente vira populista.



Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

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Última actualización el Martes, 02 de Febrero de 2010 10:40