A TV QUE RESISTE A CHÁVEZ Imprimir
Escrito por Indicado en la materia   
Domingo, 31 de Enero de 2010 12:03

Mesmo proibida de ir ao ar, emissora tenta levar vida normal, em uma atitude adotada “por dignidade”, segundo seus funcionários

O repórter chega à entrevista coletiva. Esforça-se para tirar o máximo da fonte. Mas é ele o centro das atenções. Por que está ali? Para quê? Os colegas estão curiosos. E ele, acostumado a ser o autor das perguntas, a ser o mensageiro das declarações alheias, responde, constrangido com a inversão de funções: – Acima de tudo, por dignidade.

Ojornalista do caso acima trabalha na RCTV (conhecida também como RCTI, com o “I” de internacional), emissora de TV da Venezuela que o presidente Hugo Chávez tirou do ar na transmissão aberta em 27 de maio de 2007 e, uma semana atrás, da transmissão a cabo – que passara a levar o “I” . No caso da TV aberta, não foi renovada a concessão. No da TV a cabo, a emissora, de oposição ao governo, recusou-se a transmitir discursos do presidente, desrespeitando uma ordem oficial.

A palavra “dignidade” virou um mantra nos corredores da emissora. A RCTV trabalha a todo vapor. E praticamente para si mesma. É uma forma diferente de resistência ao arbítrio. Em vez das greves, a labuta. Em vez dos braços cruzados, mãos deslizando pelas ilhas de produção, segurando microfones e carregando câmeras.

A situação é atenuada pelos contratos em pleno vigor, que não podem ser rompidos pelos patrocinadores – e costumam ser assinados para um período de vários meses. E, também, pela venda de material a outros países, ávidos em saber notícias sobre o cotidiano venezuelano.

A RCTV acabou, de certa forma, exilando sua produção. As notícias têm sido vendidas para emissoras de Aruba, Bonaire, Curaçao, Trinidad e Tobago, Miami (EUA) e Colômbia (o canal Noticias Caracol). E também podem ser vistas na internet, nos sites http://rctv.net e http://elobservador.rctv.net.

Novelas continuam tendo seus capítulos gravados

A equipe do noticioso El Observador continua apurando informações em Caracas e no interior. Dentro da emissora, o corre-corre é o mesmo de sempre. E a prioridade, na semana passada, era noticiar o que fosse possível dos protestos contra o fechamento da emissora.

Mas não é só isso. Até mesmo as gravações de estúdio da telenovela Libres como el Viento (Livres como o Vento, em espanhol) não cessaram. A nova telenovela da emissora, Que el Cielo me Explique (Que o Céu me Explique), também continua com as tomadas externas a todo vapor. Quem quer ser milionário?, o programa de auditório, persiste – restrito ao auditório, é claro.

– É tudo muito estranho. Só somos vistos em alguns países. Aqui, produzimos para ninguém. Mas resistimos. E muito por dignidade. Vamos ver até quando – diz a Zero Hora Larissa Patiño, produtora da emissora.

Quem entra na sede da empresa estranha. O ambiente, em geral, é de tranquilidade. Isso tem uma explicação e uma personificação: a vice-presidente de Recursos Humanos da emissora, Anany Hernández, recebe diariamente os editores, repórteres, cinegrafistas e técnicos com algumas palavras de alento, sempre ao sabor dos acontecimentos.

– É um desafio resistir com dignidade, mostrar ao mundo o que está ocorrendo aqui. Seguiremos lutando para recuperar a liberdade de expressão neste país. Nossas forças saem disso – diz a editora do El Observador e do programa, também noticioso, Habla la Calle (Fala a Rua), Soraya Castellano.

Se você quiser falar com funcionários da RCTV, pode ter certeza: como comprovam as declarações acima, uma palavra é sempre dita. Dignidade.

Um compromisso assumido pelos profissionais da emissora é o de que Libres como el Viento seguirá sendo gravada. E Que el Cielo me Explique, a nova trama, está pronta para (não) ir ao ar já nesta semana. Tem cerca de 20 capítulos já gravados. Na quinta e na sexta-feira, as gravações foram intensas.

– É um compromisso – explica o produtor de Libres como el Viento, Jhonny Pulido.

E por quê?

– Por dignidade.

LÉO GERCHMANN
Última actualización el Domingo, 31 de Enero de 2010 12:10