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Artigos: Brasil
Camila e seu cesto de vime PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Viernes, 25 de Diciembre de 2009 12:49

Por YOANI SÁNCHEZ
 Durante muito tempo tivemos como ritual de ano novo a reunião com vários amigos na casa de Camila. Sentados no chão e em meio a uma grande algazarra, colocávamos num cesto de vime um pedaço de papel com nosso nome, um desejo pessoal, uma meta e um vaticínio para o ano que começava. Muitos chegavamos ao encontro com nossas respostas meditadas, porém em alguns janeiros foi especialmente difícil predizer ou almejar qualquer coisa, em meio a incerteza da crise. Contudo, fazíamos o exercício de imaginar minimamente nossas vidas, de ambicionar ou adivinhar algo que poderia ocorrer-nos.

Antes de concluir essa vigília anual, liam-se os escritos do encontro ocorrido doze meses antes e se comparavam com os recém incluidos no cesto. Aquela leitura era um verdadeiro percurso pelas aspirações adiadas e planos não cumpridos, então todavia só atinávamos em rir e a continuar projetando novas fantasias. Poucas vezes acertei os augúrios sobre o que aconteceria em minha Ilha, contudo creio haver observado com boa parte do que propus à mim mesma, mais por teimosia pessoal do que por reais condições para consegui-lo. Entre os participantes daquele festejo, repetia-se notavelmente a vontade de se radicar em outro país, seguida - a muita distância - dos apetites do coração e das ânsias por um teto próprio.

Em cada encontro ao redor do cesto, notávamos que o número dos que conseguiam emigrar aumentava. A chamada “festa dos papelotes” converteu-se assim na passada da lista dos ausentes, no inventário das ilusões de todo um grupo de amigos que - frente a falta de expectativas - preferiu levantar âncoras. Até Camila, nossa doce anfitriã, foi-se à milhares de kilômetros da sua pequena casinha de Ayestarán. Nestes dias pode ser que esteja repassando a montanha de empenhos e profecias que escrevemos e acumulamos - ano após ano - em sua sala. Sei muito bem que ela guarda essas folhas amalerecidas como testemunho de uma geração dispersada, perseverança explícita de que não deixamos de sonhar nem sequer nos períodos mais duros.

Um abraço forte neste fim de ano à todos esses “palitos chineses” espalhados pelo mundo, aos comentaristas deste blog, aos blogueiros cubanos de dentro e de fora, de uma tendência ou outra, aos tradutores de Geração Y que - de maneira voluntária - fazem meus textos acessíveis à tantos, aos que trancrevem os textos que dito pelo telefone e depois os colocam no Twitter, aos que enviam meus posts à milhares de e-mails em todo o mundo e que me chamam em casa para contar o que minha menos valia como internauta não me permite saber. À todos, felicidades, sorte e persistência para este 2010 que começa em poucos dias.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Última actualización el Viernes, 25 de Diciembre de 2009 12:56
 
Prognóstico reservado PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Miércoles, 23 de Diciembre de 2009 12:00

Por Yoani Sánchez

“A estagnação é a dinâmica da deterioração” disse-me um amigo, entre filosófico e pessimista, ao escutar o discurso de Raúl Castro na Assembléia Nacional ontem. A corda de nossos prognósticos não havia sido tensionada esperando um possível anúncio de mudanças, porém alguma expectativa nos restava acerca de certas medidas grandemente prometidas. Todavia, ao pronunciar as palavras oficiais para encerrar 2009, o segundo secretário do Partido parecia estar mais inclinado ao freio do que ao timão, mais cauteloso que empreendedor, muito mais conservador do que atrevido.

Nossos parlamentares, por sua vez, voltaram a perder a oportunidade de fazerem perguntas incômodas, oporem-se numa votação ou terem discussões acaloradas. Talvez com esta deixaram ir a última ocasião de impelirem uma abertura desde cima e quebrarem essa imagem de coro mudo que têm mostrado durante mais de tres décadas. O debates acontecidos no Palácio das Convenções e transmitidos pela televisão pareciam sucederem-se num país longínquo que conta com tempo suficiente para adiar - mais de uma vez - as transformações necessárias.Nem sequer o eufemismo de “atualização do sistema econômico” incluiu as demandas mais importantes da cheia agenda popular.

Deste quarto período ordinário de sessões, apenas se passarmos a limpo de modo claro o nome do ano novo, um crescimento minguado do PIB que - ainda assim - continua nos parecendo inflado e a ameaça de cortes futuros que ninguém substancia. Apesar de certas frases de tom pragmático ditas na locução final, o voluntarismo e as ordens que chegam de cima continuam dando forma à principal estratégia para governar o país. De maneira que a figura do parlamentar perde cada vez mais a importância, pois o nosso plano mestre é cozinhado num único escritório, é referendado com um par de assinaturas apenas. Não me surpreenderia que em fevereiro ou março se implemente um pacote de cortes e ajustes que não passará - sequer - pela complacente mão levantada destes deputados.

Em meados do ano entrante a Assembléia Nacional se reunirá de novo para dar seu aplauso, sua conhecida dose de cumplicidade e seu silêncio.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Diciembre 21st, 2009 | Categoría: Geração Y | 43 comentarios
 
A coca-cola do esquecimento ou o caldo de cana da saudade PDF Imprimir E-mail
Escrito por Yoani   
Domingo, 20 de Diciembre de 2009 18:33

Por Yoani Sánchez

Tenho vivido aqui e lá. Tenho sido uma voz pedindo a permissão para sair do meu país e uma exilada esperando pela autorização de entrada. O mecanismo tem me triturado com ambos os lados de suas rodas dentadas: por estar fora e por me decidir a ficar na minha Ilha. Fui à um consulado para pagar as altas tarifas mensais de permanência em outro país e tive que enfrentar também o custo do regresso, a enorme quantia pessoal de ser uma “retornada”. Durante dois anos olhei a Ilha a distância e tive o dilema de tomar a “coca-cola do esquecimento” ou o “caldo de cana da saudade”, porém nenhum dos dois desceu pela minha garganta. Preferi o agridoce sabor desta realidade.

Tenho pesadelos de que entro pela alfândega cubana e um uniformizado me conduz à um quarto cinzento. Rodeada de paredes desbotadas e de uma enorme foto de Fidel Castro, tiram meu passaporte e me anunciam que se entrar não poderei - nunca mais - viajar à outro destino. Tudo isto é explicado por um funcionário de cara suarenta, que tem uma pistola nas costas e uma esferográfica sobressaindo do bolso. Pressinto que passarei para a eternidade frente este de ser de palavras rudes, sem a possibilidade de cruzar a porta até o salão onde minha família espera. A inquietude chega a um ponto em que desperto e comprovo que continuo na minha casa, igualmente prisioneira, porém satisfeita de haver voltado.

Tão obsessivo sonho se alterna com outro no qual não me deixam voar até o meu próprio país. Estou num aeroporto longínquo, tratando de pegar uma nave com destino à Havana. A jovem que examina as passagens me diz que não posso embarcar. “Temos ordens de não deixá-la subir”, conclui, sem a carga dramática de quem acaba de notificar outro da sua condição de expatriado. Não há ninguém à quem apelar e as lousas eletrônicas marcam as próximas saídas para Nova Iorque, Buenos Aires, e Berlim. Sento-me e coloco a bagagem sobre minhas pernas, para me apoiar nela e tentar dormir. Isto não pode ser verdade - digo `a mim mesma - tenho que descansar e quando despertar estarei na cabina, a milhares de metros de altura.

Já experimentei com chá de tilo, com ler histórias de pilotos antes de deitar e colocar música relaxante na casa. Porém a única coisa que terminará com esta sequencia onírica de clausura e expulsão é o fim das restrições migratórias para os cubanos. Quero ter o direito de viajar, como também quero poder dormir sem ver o uniformizado que me toma o passaporte e sem escutar o ruído de uma vião que levanta vôo, deixando-me em terra alheia.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Última actualización el Jueves, 24 de Diciembre de 2009 18:49
 
Franquear uma zona PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 20 de Diciembre de 2009 18:38

Por Yoani Sánchez

Conheço-os desde sempre, desde que me aventurei além do meu bairro de fachadas sujas para uma Havana que não parava de me surpreender. Pode-se dizer que se parecem com quase todos os meus amigos: cabeludos, alternativos e risonhos. São como esses jovens que abarrotavam nossa sala, faz uns anos, para tocar guitarra e passar o apagão entre canções e poemas. Os rapazes de Omni Zona Franca usam uma caçarola como chapéu, uma saia sobre suas pernas de varões ou um longo cajado feito com um ramo de árvore. Rebeldes em tudo, rompem com a poesia edulcorada e apologética, com as normas do bem vestir e até com a arte institucionalizada e portanto, prudente.

O cenário de suas performances é precisamente nessa periferia de Alamar, desenhada para que nela habitasse o homem novo. Hoje, um conglomerado de edifícios disfuncional - todos idênticos - onde ninguém quer viver e os que alí residem raramente conseguem se mudar para outro lugar. Atirados sobre a erva sem muita lógica urbanística, estes blocos de concreto têm sido inspiração para várias ações artísticas do Omni. Recordo quando os vizinhos da zona chamaram a polícia ao verem braços e cabeças saindo entre os montes de lixo que nenhum caminhão recolhia há semanas. Foi a maneira que estes jovens encontraram para dizerem aos seus concidadãos: nos estamos afogando nos desejos, apenas conseguimos respirar em meio a tanto resíduo.

Cada dezembro Omni organiza o Festival de Poesia sem fim, a atual edição tem estado marcada pelo fechamento de seu local na casa de cultura de Alamar. Entre patrulhas policiais e a voz de um furioso viceministro da cultura, à estes irreverentes crônicos foi tirado um espaço que tinham desde há doze anos. Puderam levar consigo os cartazes, as cerâmicas, um par de velhas máquinas de escrever e um laptop em que editam vídeos e escrevem em sua página web. O programa de atividades mudou-se para as salas de suas casas e na garagem de um amigo, tudo com o fito de não suspender a grande “festa de luz”. Hoje estarão carregando uma enorme oferenda pela saúde da poesia até o santuário de São Lázaro no povoado de Rincón. Levantaram sobre seus braços a figura enorme feita com galhos e pediram um verso, uma rima sonante ou o estribilho de uma canção de hip hop.

Os que os tiraram, sexta-feira passada, de sua sede, e tentaram castigar com o nomadismo não compreendem que a arte deles brota do asfalto, do louco que pede esmolas numa esquina e dessa cidade ferida porém forte que Alamar hoje é.

Um artigo sobre Omni Zona Franca que fiz faz dois anos.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto (o gusano que caiu na sua sopa)

Última actualización el Domingo, 20 de Diciembre de 2009 19:05
 
O pátio de Karina, não é particular PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 20 de Diciembre de 2009 18:41

Por Yoani Sánchez

O lobo feroz e o homem do saco se chamavam de outra maneira na minha infância: a Reforma Urbana. Criada numa casa da qual os meus pais não tinham a escritura, quando tocavam na porta um sobressalto nos percorria de que poderia ser um inspetor de moradia. Aprendi a olhar pelas persianas antes de abrir, uma prática que ainda conservo para evitar esses bisbilhoteiros com processos que nos advertiam da fragilidade legal do nosso lar. A instituição que eles representavam era mais temida na minha casa do que a própria polícia. Numerosos confiscos, selos colados nas portas, despejos e multas, faziam que os valentes de Centro Havana cerrassem as mandíbulas quando ouviam falar do Instituto de Moradia.

Nos dias atuais esse fantasma da minha meninice regressou com o acontecido ao redor do pátio da minha amiga Karina Gálvez. Economista e professora universitária, esta simpática pinareña fez parte do conselho editorial da revista Vitral e agora é um imprescindível pilar do portal Convivencia. Isso, numa sociedade onde a censura e o oportunismo vicejam - por todas as partes - como o marabú (erva daninha), pode ser interpretado como um grande erro de Karina. Para o cúmulo, sempre acreditou que a casa de seus pais, onde nasceu e vive há mais de quarenta anos, era uma propriedade familiar, tal como diz o documento guardado na segunda gaveta do seu armário. Baseando-se em que construir no próprio pátio deve ser algo tão íntimo como a decisão de deixar crescer as unhas, ergueu um quiosque sem paredes para o qual todos os amigos contribuiram com algo. Pouco a pouco tornou-se em lugar de debate, epicentro da reflexão e lugar de peregrinação imprescindível para criadores e livrepensadores de Pinar del Río.

Até o Emérito Bispo Ciro González veio abençoar a Virgem da Caridade que presidia aquele espaço acolhedor. Recordo que Reinaldo e eu procuramos um ceramista que gravou a bandeira e o escudo cubanos para o altar improvisado no já celébre “Pátio de Karina”. Começaram então as escaramuças legais, os inspetores da Reforma Urbana com suas ameaças de demolição obrigatória e expropriação. Parecia que tudo ia acabar numa penalização monetária - ou na pior das hipóteses - na derrubada do construido. Porém os que não souberam edificar têm prazer especial em confiscar, tirar o conseguido pelos outros, desapropriar o que eles mesmos não criaram. De maneira que ontem, terça-feira, uma brigada chegou na casa da minha amiga e anunciou que seu pátio já não era seu, senão propriedade da empresa estatal CIMEX que se limita com a casa. Numa velocidade raramente vista por estes lares, levantaram um barreira de metal que de noite se converteu num muro de ladrilhos.

Karina - em sua infinita capacidade de rir de tudo - me disse que pintaram sobre a feia muralha um par de galos coloridos que anunciam a alvorada. O outro lado, o terreno que sempre lhe pertenceu agora é usado por outros. Um dia o recuperará, eu sei, porque nem a Reforma Urbana, nem a polícia política, nem a brigada de resposta rápida que postaram fora, poderão impedir que continuemos dizendo e sentindo que esse é o Pátio de Karina.

Galeria de fotos de Yoani Sánchez no Flickr

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Última actualización el Domingo, 20 de Diciembre de 2009 18:42
 
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