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Artigos: Brasil
Dilma e as uvas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Sábado, 07 de Junio de 2014 12:47

Por Fernando Gabeira.-

Num de seus recentes discursos, Dilma Rousseff afirmou que as obras para a Copa terão padrão brasileiro, não padrão Fifa. Com essa frase queria dizer também que nossos padrões são mais democráticos, naturalmente referindo-se aos altos preços dos ingressos. Dilma fez tal declaração no fim de um período em que a Copa do Mundo foi perdida fora do campo e todos esperamos, ela com ansiedade singular, que seja ganha dentro do campo.

Essa frase de Dilma marca uma inflexão do governo nas suas relações com a Fifa, cujos dirigentes afirmam que o Brasil propunha a Copa em 17, e não 12 cidades. Foi preciso conter a megalomania de Lula e a própria Fifa foi otimista quando considerou 12 um bom número, levando em conta o tamanho do Pais, não suas reais possibilidades.

O Estádio Mané Garrincha, beirando o R$ 1,5 bilhão, custou mais caro que um estádio do Qatar – país com a maior renda per capita do mundo – para 2022. Se os cálculos forem comprovados, o padrão brasileiro foi mais caro, no Mané Garrincha, do que o padrão Fifa sonharia. O estádio de Brasília é um monumento. Não sabemos ainda se é um monumento à incompetência ou à roubalheira, embora no padrão brasileiro os dois joguem no mesmo time, bem perto do gol.

Três estádios foram plantados em cidades cujo futebol não atrai multidões. O velho estádio de Natal só conseguiu lotação plena quando o papa visitou a cidade. Para o novo estádio teremos de combinar com o papa Francisco algumas visitas regulares, algo difícil porque um papa não faz visitas apenas para cumprir tabela.

Em Cuiabá presenciamos um fato inédito na história: no dia da visita de inspeção da Fifa, o governador e o presidente da Assembleia estavam presos. É a Copa das Copas, ou o mico dos micos, como quiserem.

Em Manaus, na imensidão um estádio vazio, uma arena amazônica que me deixa perplexo, sobretudo quando vejo o que vi na Vila de Boim, a seis horas de barco de Santarém: o esforço das comunidades para jogarem a sua própria Copa, numa região da floresta para a qual não existe política de esporte.

Lula quis dar salto maior que as pernas e agora que o fracasso se revela resta apenas ironizar o padrão Fifa que se comprometeu a adotar.

A esquerda não tem o monopólio da duplicidade e da dissimulação. Mas num partido como o PT e, sobretudo, num governo ditatorial como o cubano, são os dois elementos vitais para sobreviver e crescer. Em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura fala de uma família cubana, possivelmente a do próprio escritor, que ensinou aos filhos exatamente o oposto dessa regra da sobrevivência: falar a verdade, ser fiel a si próprio.

O discurso do governo brasileiro em relação à Copa é de um zigue-zague acrobático, uma tentativa desesperada de abordar os fatos de frente e cair na realidade. Não foi uma ideia feliz trazer a Copa para o Brasil e assumir os compromissos que assumiu com a Fifa.

Isso não significa que a Copa não deva ocorrer, muito menos que deixamos de torcer pela vitória dentro do campo. Significa apenas que a linguagem cínica do governo é uma fonte permanente de degradação da vida política. Reflete uma lei interna segundo a qual não é preciso dizer o que pensa, regra válida para todos os que aderem. Basta que façam o jogo, dancem de acordo com a música.

Até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática é o enigma que envolve o futuro próximo do Brasil. Controlar o aparato estatal, o Parlamento e até o Supremo Tribunal ainda é um cobertor curto. Restam a sociedade, a imprensa, a internet.

Os militares compreenderam que não tinham resposta para o futuro e organizaram a retirada para não baterem em fuga desordenada, arriscando a instituição. O PT não acumulou forças para encarar a verdade, arriscar o poder e preservar-se para o futuro.

O discurso de Dilma não é voltado para a frente. Apenas adverte que a vitória da oposição significará um ajuste que vai reduzir salários, aumentar o desemprego e cortar verbas sociais. Embora não reconheça, ela deve saber que é necessário um ajuste, que pode ser moderado, no sentido que lhe dá Amartya Sen. Quer dizer, não precisa reduzir salários nem cortar verbas sociais. Um ajuste desse tipo seria voltado para os gastos irracionais do governo. Mas bateria de frente com o mundo político e burocrático, toda essa gente agarrada a cargos, verbas, negociatas. Às vezes, quando falamos em defender o salário do povo, estamos defendendo os nossos próprios salários. E reaparecem aí a duplicidade e a dissimulação.

Dotar o Brasil de um governo inteligente, aberto e conectado, transformar um sistema político que se tornou uma gigantesca sanguessuga não figuram no seu horizonte. O único caminho é usar os interesses populares como escudo para os seus próprios interesses e agarrar-se ao poder.

Na classificação de presidentes de toda a República no quesito crescimento, Dilma está em penúltimo e Fernando Collor em antepenúltimo lugar, atrás de Floriano Peixoto, portanto, entre os quatro de baixo que vão para a Segundona. Ao afirmar que as dificuldades econômicas foram conjunturais, ela pede uma segunda chance. Mas pede como se estivesse no grupo de cima, preparando-se para a Libertadores.

Como dizia Cazuza, suas palavras não correspondem aos fatos, sua piscina está cheia de ratos. Aceitar que suas palavras não correspondem aos fatos e limpar a piscina política e administrativa dos seus ratos é uma tarefa gigantesca. O caminho mais fácil é controlar o Estado, o Parlamento o Supremo, mobilizar uma artilharia eletrônica.

Que venham todos, porque, independentemente de resultados eleitorais, há um imenso número de brasileiros sabendo o que há por trás dessa duplicidade e dissimulação. Gente que gostaria de falar sério sobre nossos problemas, e não perder a energia desmontando as bravatas de Lula, como essa da Copa. Perdemos tempo, dinheiro, operários, moradias, irresponsabilidade que nem a vitória no campo conseguirá apagar.

em Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 2014

 
A decadência do Ocidente PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Domingo, 01 de Junio de 2014 09:49

Por Mário Vargas Llosa.-

Mesmo que aparentemente os partidos tradicionais –populares e socialistas– tenham vencido as eleições ao Parlamento Europeu, ambos perderam muitos milhões de votos e o fato central dessa eleição é a irrupção torrencial em quase toda a Europa de partidos de ultradireita ou de ultraesquerda, inimigos do Euro e da União Europeia, que querem destruir para ressuscitar as velhas nações, fechar as fronteiras à imigração e proclamar sem rubor sua xenofobia, seu nacionalismo, sua filiação antidemocrática e seu racismo. Que haja matizes e diferenças entre eles não dissimula a tendência geral de uma corrente política que até agora parecia minoritária e marginal e que, nessa disputa eleitoral, demonstrou um crescimento espetacular.

Os casos mais emblemáticos são os da França e da Grã-Bretanha. A Frente Nacional de Marine Le Pen, que até poucos anos era um grupelho excêntrico, agora é o primeiro partido político francês –não tinha nenhum deputado europeu e agora tem 24– e o UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, depois de derrotar conservadores e trabalhistas tornou-se a formação política mais votada e popular do berço da democracia. Ambas as organizações são inimigas declaradas da construção europeia, querem enterrá-la e ao mesmo tempo acabar com a moeda comum e levantar barreiras inexpugnáveis contra a imigração, que consideram responsável pelo empobrecimento, o desemprego e o crescimento da delinquência em toda a Europa ocidental. A extrema direita venceu também na Dinamarca, na Áustria os eurofóbicos do FPÖ alcançaram 20%, na Grécia o ultraesquerdista antieuropeu Syriza ganhou as eleições e o Partido neonazista Amanhecer Dourado (que teve 10% dos votos) mandou três deputados ao Parlamento Europeu. Catástrofes parecidas, mesmo que em porcentagens algo menores, ocorreram na Hungria, Finlândia, Polônia e demais países europeus onde o populismo e o nacionalismo também aumentaram sua força eleitoral.

Os movimentos antissistema podem enterrar, mais cedo ou mais tarde, a União Europeia

Alguns comentaristas se consolam afirmando que esses resultados indicam um voto de raiva, um protesto momentâneo mais do que uma transformação ideológica do velho continente. Mas como está claro que a crise da qual resultaram os altos níveis de desemprego e a queda do nível de vida levará ainda alguns anos para ficar para trás, tudo indica que a virada política que essas eleições mostraram, ao invés de ser passageira, provavelmente durará e talvez se agrave. Com quais consequências? A mais óbvia é que a integração europeia, se não for completamente freada, será muito mais lenta do que o previsto, com quase certeza de que haverá debandada entre os países membros, começando pelo britânico, que já parece quase irreversível. E, acossada por movimentos antissistema cada vez mais robustos e operando em seu seio como uma quinta coluna, a União Europeia estará cada vez mais desunida e abalada por crises, políticas falidas e uma contestação permanente que, a curto ou longo prazo, poderiam enterrá-la. Desse modo, o mais ambicioso projeto democrático internacional iria a pique e a Europa das nações crispadas regressaria curiosamente aos extremismos e paroxismos que levaram às matanças vertiginosas da Segunda Guerra Mundial. Porém, inclusive se não se chega ao cataclismo de uma guerra, sua decadência econômica e política seguiria sendo inevitável, à sombra vigilante do novo (e velho) império russo.

Enquanto me inteirava dos resultados das eleições europeias, lia, no último número de The American Interest, revista dirigida por Francis Fukuyama (Maio/Junho 2014), uma fascinante pesquisa intitulada America Self-Contained? (que poderia ser traduzida como “América ensimesmada?”), na qual uma quinzena de destacados analistas estadunidenses de distintas tendências examina a política externa do Governo do Presidente Obama. As coincidências saltavam à vista. Não porque nos Estados Unidos tenha havido uma irrupção do populismo nacionalista e fascistão que poderia acabar com a Europa, mas porque, com métodos muito diferentes, o país que até agora havia assumido a liderança do Ocidente democrático e liberal ia se eximindo discretamente de semelhante responsabilidade para confinar-se, sem traumas nem nostalgia, em políticas internas cada vez mais desconectadas do mundo exterior e aceitando, neste globalizado planeta de nossos dias, sua condição de país destronado e menor.

Os críticos divergem sobre as razões dessa “decadência”, mas todos estão de acordo que ela se reflete em uma política externa na qual Obama, com o apoio inequívoco da maioria da opinião pública, se livra de maneira sistemática de assumir responsabilidades internacionais: sua retirada do Iraque, primeiro, e, agora, do Afeganistão, depois dos fracassos evidentes, pois em ambos os países o islamismo mais destruidor e fanático continua fazendo das suas e enchendo as ruas de cadáveres. Por outro lado, o governo dos Estados Unidos se deixou derrotar pacificamente pela Rússia e pela China quando ameaçou intervir na Síria para por fim ao bombardeio com gases venenosos feitos pelo governo de Assad sobre a população civil, e não só não o fez como tolerou sem protestar que aquelas duas potências continuassem fornecendo armamento letal à corrupta ditadura. Inclusive Israel se deu ao luxo de humilhar o governo norte-americano quando este, através do empenho do Secretário de Estado Kerry, tentou uma vez mais ressuscitar as negociações com os palestinos, sabotando-as abertamente.

Novas formas de autoritarismo, como as da Rússia e da China, substituíram as antigas

Segundo a pesquisa da The American Interest, nada disso é casual e nem pode ser atribuído exclusivamente ao governo de Obama. Trata-se, pelo contrário, de uma tendência muito mais antiga e que, mesmo tendo ficado soterrada e velada por um bom tempo, encontrou, como consequência da crise financeira que golpeou com tanta força o povo estadunidense, a oportunidade de crescer e se manifestar por meio de um governo que se atreveu a materializá-la. Ainda que a ideia de que os Estados Unidos se atrapalhem para solucionar seus próprios problemas e, para acelerar seu desenvolvimento econômico e devolver à sociedade os altos níveis de vida que alcançou no passado renuncie à liderança do Ocidente e a intervir em assuntos que não lhe digam respeito diretamente nem representem uma ameaça imediata a sua segurança seja objeto de críticas entre a elite e a oposição republicana, ela tem um apoio popular muito grande dos homens e mulheres comuns, convencidos de que os Estados Unidos devem deixar de se sacrificar pelos “outros”, entregando-se a guerras caríssimas em que dilapida seus recursos e sacrifica seus jovens, enquanto o trabalho escasseia e a vida se torna cada vez mais dura para o cidadão comum. Um dos ensaios da pesquisa mostra como cada um dos importantes cortes em gastos militares que Obama fez teve o respaldo esmagador da população.

Quais conclusões tiramos disso tudo? A primeira é que o mundo já mudou muito mais do que acreditávamos e que a decadência do Ocidente, tantas vezes prognosticada na história por intelectuais sibilinos e amantes das catástrofes, passou por fim a ser uma realidade de nossos dias. Decadência em que sentido? Antes de mais nada, do papel diretor, de liderança, que tiveram a Europa e os Estados Unidos no passado mediato e imediato, para muitas coisas boas e algumas más. A dinâmica da história já não nasce só ali, mas também em outras regiões e países que, pouco a pouco, vão impondo seus modelos, usos e métodos ao resto do mundo. Essa descentralização da hegemonia política não seria ruim se, como acreditava Francis Fukuyama quando da queda do Muro de Berlim, a democracia liberal se expandisse por todo o planeta erradicando a tradição autoritária para sempre. Infelizmente isso não aconteceu, muito pelo contrário. Novas formas de autoritarismo, como os representados pela Rússia e pela China de nossos dias, substituíram as antigas, e é a democracia que começa a retroceder e a encolher-se em toda parte, debilitada pelos cavalos de Troia que começaram a se infiltrar naquelas que acreditávamos ser cidadelas da liberdade.

EL PAIS; ESPANHA

 
É golpe do PT!!! PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Viernes, 30 de Mayo de 2014 20:57

Por Ronaldo Caiado.-

Vendo que vai perder no voto, o PT agora atua para criar um sistema paralelo de poder. Por meio de um nome "bonitinho", Dilma e PT assinaram o Decreto 8243/2014, que cria a Política e o Sistema Nacionais de Participação Social.

O decreto diz criar conselhos compostos por “cidadãos, coletivos, movimentos sociais institucionalizados" nos órgãos do governo. Mas só tem um detalhe: o próprio governo vai indicar esses membros desses conselhos. E mais: É o aparelhamento ideológico por meio de movimentos sociais, filiados ao PT e sindicalistas ligados ao governo.

Isso é uma afronta à ordem constitucional do País. O PT esvazia o poder legislativo e transfere as decisões aos seus "companheiros". Democracia se dá por meio dos seus representantes eleitos para o Congresso. Uma pessoa, um voto. Não existe cidadão mais importante que o outro. Agora o petista desses conselhos vai ter mais poder que um cidadão comum? Mais poder que alguém eleito democraticamente pelo povo?

PT quer criar cidadãos de 1ª classe (companheirada) e de 2ª classe (demais brasileiros). Não vamos permitir! O líder Mendonça Filho e eu apresentamos um Projeto de Decreto Legislativo para derrubar esse decreto antidemocrático da presidente Dilma.

Não vamos deixar esse ataque à Constituição e à democracia prosperar. Estamos avaliando acionar o STF. Dilma e o PT querem transformar o Brasil numa Venezuela, onde Chávez criou grupos de poder paralelos, que jogaram o País naquela bagunça, onde as instituições não são respeitadas.

O PT/Dilma escancarou sua face ditatorial! Fiquem atentos! Aqui não é a Venezuela. Não vamos admitir uma ditadura.

SITE DO RONALDO CAIADO

 
Os astros do futebol brasileiro não querem jogar contra as ruas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Viernes, 30 de Mayo de 2014 12:32

Por Juan Arias.-

Os astros do futebol brasileiro não querem jogar contra as ruas e se veem sacudidos por dois fantasmas que os afligem em meio à incógnita e as críticas à Copa: a imagem negativa que o país pode oferecer ao mundo com o atraso nas obras de infraestruturas e o temor de parecerem contrários às manifestações contra o Mundial. Não querem jogar contra as ruas.

A maioria dos jogadores famosos que disputarão a Copa joga no exterior, por exemplo, assim como já faziam antigas glórias como Ronaldo. Todos eles sabem da simpatia de que o Brasil goza no exterior, ou pelo menos que gozava até ter estourado a bomba da Copa, com seus gastos milionários e as suspeitas de corrupção.

Para eles, dói ver a perplexidade com a qual o Brasil se apresenta ao mundo, passando de uma autoimagem de exaltação, talvez exagerada, como confessou Caetano Veloso, a um silêncio doloroso e melancólico, como é palpável para os brasileiros que se encontram ultimamente fora do país e notam que os estrangeiros, ao contrário do que ocorria no passado, fazem perguntas sobre o país ou sobre a Copa.

É como se percebessem que o Brasil está atravessando um momento doloroso, e têm até medo de perguntar. Fazem-no entredentes.

Deve ter doído a esses jogadores, por exemplo, ver no domingo passado como algumas emissoras de TV estrangeiras, minutos antes de começar o grande duelo de Lisboa entre Real Madrid e Atlético de Madri, mostravam detalhes das ruas de São Paulo e do Rio durante as manifestações contra a Copa, com cenas impressionantes de violência policial contra os manifestantes, do tipo que não costuma aparecer nas telas da TV brasileira.

É uma dor natural nesses astros do futebol que, de alguma forma, são uma espécie de embaixadores do Brasil no exterior.

E as preocupações dos jogadores com as manifestações contra a Copa? Ao que parece, eles não querem jogar contra as ruas. Querem poder erguer a Copa da vitória ao fim do torneio, mas não querem fazê-lo contra os sentimentos de uma maioria dos brasileiros que preferia que o Mundial ocorresse fora do país, magoados que estão com o suposto esbanjamento de dinheiro. Dói-lhes que nem sequer com cinco anos de prazo as autoridades tenham sido capazes de realizar as obras de infraestrutura, quando nesse mesmo tempo o Brasil foi capaz de levantar do nada a cidade de Brasília.

Alguns talvez achem que há interesse no fato de, segundo informou Lauro Jardim, a maioria dos jogadores que disputará a Copa declar não estar contra as manifestações, e nenhum deles aceitou fazer publicidade governamental em favor do Brasil neste momento. Poderia, entretanto, haver outra leitura: a constatação que também eles, além e antes de serem astros do futebol, são cidadãos deste país, que os aplaude e os ama, já que o Brasil, mesmo quando está contra a Copa, carrega o futebol no seu sangue.

Sabem esses jogadores que a Copa passará e que o Brasil continuará aí, com seus problemas, seus atrasos, suas corrupções e seus sonhos. E eles devem isso a todos: aos que querem que a Copa aconteça como um momento de júbilo, e aos que preferiam que todo esse dinheiro gasto em estádios como catedrais no deserto tivesse acabado em melhoras nos serviços para toda a população.

O Governo deve fazer o seu papel, que é a defesa de um evento que conquistou quando o Brasil ainda assombrava o mundo com seu despertar econômico, e preferiria ver hoje os jogadores somados em coro ao slogan de que esta será a Copa das Copas. E, ao mesmo tempo, os jogadores, que afinal são cidadãos como todos, têm todo o direito de não quererem jogar a favor de uns e contra outros.

Isso é serem fiéis ao seu país, que vive um momento de crise e de dor que está provocando esse silêncio incrédulo no exterior, onde curiosamente, até antes da Copa, havia toda uma gritaria a favor do Brasil. Os jogadores sabem que as ruas não estão contra o futebol nem contra eles, embora às vezes possam criticá-los.

Não confrontar aqueles que talvez desejem aproveitar as próximas semanas, momento em que os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil, para exigir que o país possa dentro de quatro anos, na próxima Copa, ser um país mais moderno, com melhores serviços públicos e menor desigualdade social, é algo que deveria ser visto mais como um sinal de maturidade da sociedade como um todo.

Se além do mais os nossos meninos conquistarem a Copa, melhor ainda.

E se a perderem? O importante é que vença a ânsia do Brasil de ser um país melhor do que é. E o fato de desejar e lutar para conquistar isso, sem violência e com espírito de solidariedade com os mais marginalizados de tudo, até da Copa, seria a melhor das vitórias.

Contra essa Copa ninguém se manifestaria. É essa, sobretudo, a que o país quer jogar e ganhar, mesmo que quebrando resistências e até velhas lealdades.

A Copa que aparentemente ninguém quer é a que seria só uma estrela de ilusões fugazes, em vez da sólida confiança de que o sol continuará ressuscitando a cada dia com sua carga de esperança para que não nos devorem as sombras e pesadelos da noite, contra as quais tantos brasileiros lutam a cada dia com maior força.

EL PAIS; ESPANHA

Última actualización el Viernes, 30 de Mayo de 2014 12:35
 
Lula deveria refundar o PT? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Indicado en la materia   
Domingo, 25 de Mayo de 2014 14:58

Por Juan Arias.-

Em seus 34 anos de densa história política e social, o Partido dos Trabalhadores (PT), que chegou a ser o maior partido de esquerda da América Latina, está vivendo um momento de baixo astral, sacudido por escândalos de corrupção e desalento de seus partidários jovens, que não vibram mais como faziam em seus anos de luta e fervor cidadão.

Terá chegado a hora de sua refundação?

O criador do PT, Lula da Silva, que foi levado à presidência da República em 2003 pelo partido nascido do sindicalismo, e um dos políticos mais experientes deste país, foi o primeiro a detectar o terremoto que começava a pairar sobre o partido.

Em uma entrevista a este jornal em outubro passado, afirmou que o PT, que já está há 12 anos no poder, deve "se renovar" e manifestou o sonho de que voltasse a suas origens quando, em vez de procurar cargos e dinheiro, seus afiliados "trabalhavam de graça, de manhã, de tarde, de noite". Manifestou o desejo de que o PT "não esqueça para que foi criado" e especificou uma das características mais originais do partido, que foi o que um dia o tornou grande e distribuidor de esperanças. Segundo Lula, o PT, na verdade, "não nasceu para fazer como os outros, mas para atuar de forma diferente".

A esta altura, no entanto, uma simples renovação do PT não parece suficiente. Em seu interior movem-se grupos contrapostos com visões diferentes da política. Outros já saíram ou foram expulsos. Alguns criam obstáculos até para sua presidente, Dilma Rousseff.

O PT precisaria ser refundado como fez Felipe González na Espanha, terminada a ditadura de Franco, com o então Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que de partido marxista se converteu em um partido da social-democracia europeia, o que permitiu que transformasse o país nos 14 anos de seu governo. Saiu do poder, no final, sacudido por escândalos de corrupção e por acusações de praticar terrorismo de Estado. Hoje também o PSOE precisaria ser refundado para responder às exigências do eleitorado progressista espanhol.

Não é nenhum segredo que o PT, em 12 anos de governo, contribuiu para o crescimento e desenvolvimento deste país, que o colocou na órbita da geopolítica mundial

Os partidos, mesmo os melhores, com o tempo se desgastam e se corrompem. Também as outras instituições, começando pelas igrejas, que também estão se refundando para voltar a suas origens sob o impulso renovador do papa Francisco.

Não é nenhum segredo que o PT, em 12 anos de governo - como fez o PSOE de Felipe González na Espanha - contribuiu para o crescimento e desenvolvimento deste país, que o colocou na órbita da geopolítica mundial.

Como não é nenhum segredo que os últimos episódios da suposta corrupção que a Polícia Federal do Brasil começou a desenterrar na empresa estatal Petrobras - que afetou diretamente personagens importantes do PT - junto com o fato de que os dirigentes que em 2003 levaram o partido ao poder permaneçam presos, está afetando seriamente a organização política de Lula.

Entre as maiores preocupações do PT está a recuperação dos jovens que foram um dia o coração vivo do partido. Lula chegou a dizer que "o dia em que os jovens desistirem da política estarão abertas as portas ao fascismo". E seus partidários jovens, apesar de terem sido convocados pelo partido para que saíssem às ruas em São Paulo quando, em junho passado, começaram os protestos, ficaram em casa.

(Nota de Cubalibredigital: Os jovens sim saiaram às ruas em junho passado, mas, não para apoiar o PT)

E o PT, ou pelo menos seu governo, não goza mais do apoio e do fervor dos sindicatos que foram fundamentais para levar Lula ao poder.

Como o PT poderia recuperar o que Lula enumerou como a essência do partido em seus melhores anos de história quando, por exemplo, se apresentava como o paladino da ética na política e quando participar nas lutas sociais do partido era um incentivo poderoso para que os jovens militassem nele?

Pessoas dentro da formação que não aceitam que o partido - aconteça o que acontecer nas próximas eleições - possa acabar, com ou sem razão, arrastado a ser um partido fisiológico como os demais pelo desgaste de 12 anos de poder, chegam a pensar na possibildiade de uma refundação.

Quem recolheria a bandeira desse desafio? Quantos estariam dispostos a fazer uma travessia pelo deserto para voltar a uma terra prometida que já foi sua e que agora parece distante?

Na narrativa bíblica do Êxodo são descritas as aventuras e desventuras de Moisés com o povo judeu, saindo da escravidão à qual tinham sido submetidos no Egito para chegar à terra prometida. O texto bíblico destaca, no entanto, a rebelião de muitos daqueles escravos que, ao atravessar o deserto, continuavam com saudades das cebolas que tinham deixado para trás e as preferiam no lugar do maná gratuito que chovia do céu. Não era suficiente a fé no Deus escondido e invisível, por isso criaram um bezerro de ouro, que acabaram adorando e atraindo as iras de Javé.

O deserto, desde aquela narrativa bíblica, sempre foi símbolo de uma passagem de purificação ante as dificuldades para voltar a se encontrar.

Por esse deserto passam às vezes as pessoas, de forma livre ou forçada, para reencontrar o equilíbrio e a paz perdida. Passam as instituições tanto laicas quanto religiosas que, depois de terem se desviado do caminho traçado e adorado diversos bezerros de ouro, tentam recuperar seu verdadeiro destino, aquele para o qual tinham sido fundadas.

Há quem desejaria que o PT desaparecesse do mapa político brasileiro como algo funesto que chegou, segundo eles, a tornar-se dono do Estado e corromper as instituições depois de trair sua vocação de fermento ético dentro da política.

Melhor seria, no entanto, para o bem do país e da República, que o partido no qual tinham confiado e ainda confiam milhões de brasileiros, e que foi exemplo no continente de uma maneira diferente de fazer política, dedicado às lutas sociais, fizesse agora um parêntese. Uma nova travessia do deserto para se refundar e poder ressurgir com os valores nos quais havia sido forjado em momentos escuros da democracia, para poder contribuir não só para regenerar a política - uma das instituições menos apreciadas pelos cidadãos - mas para fazer com que os jovens voltem a sonhar com ela.

A história não costuma se repetir. Moisés não conseguiu ver a total liberação do seu povo até se fixar na terra prometida. O PT conta, sem dúvida, com um Moisés que o conduziu primeiro pelo deserto da oposição e depois pela glória do Governo para os seus, nascidos do ventre social do sindicalismo.

Será que Lula conseguiria, depois de ter fundado o PT, refundá-lo, se necessário com novo nome e nova bandeira? Só o destino dirá. Sem dúvida, hoje, só ele teria a força e o carisma para refundar sua criação, como teve um dia Felipe González na Espanha.

Uma refundação que deveria escutar, antes, as vozes dos jovens filhos daquela caravana de milhões que o PT tirou da escravidão da miséria para levá-los à terra prometida da classe média.

Sem eles, o PT poderia ter um fim melancólico. Com eles, poderia ressurgir de suas cinzas do passado. Uma ressurreição que poderia ter cores diferentes das que um dia foram agitadas nas bandeiras do partido, mas que talvez conseguiria fazer com que as novas gerações de brasileiros voltassem a sonhar.

Estas gerações sentem-se hoje desiludidas com a política e precisam de alguém que tenha força para conquistá-las e fazer delas um instrumento novo e moderno, capaz de defender as novas liberdades e os novos anseios de um mundo em profunda transformação que já não é o mesmo em que seus pais viveram. Se o PT não fizer isso, outros tentarão, porque o Brasil está exigindo.

Neste planeta que devora o tempo e pula gerações com a força de suas invenções, talvez a coisa mais atrasada, antiga e incapaz de uma transformação profunda seja a política. E os jovens, que são os mais sensíveis ao novo, estão sentindo isso na carne, mais do que qualquer outro setor. O PT será capaz de voltar a entusiasmá-los?

EL PAIS; ESPANHA

Última actualización el Domingo, 25 de Mayo de 2014 15:04
 
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